quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A nostalgia a correr para lado nenhum

20 anos depois de um filme icónico que marcou gerações, não era evidente, nem sensato, dar uma continuação a Trainspotting. Ela aí está, contudo. E o realizador Danny Boyle e o actor Ewen Bremner sabiam que não podiam fazer apenas mais do mesmo nem nada de completamente diferente.


JORGE MOURINHA em Berlim 23 de Fevereiro de 2017



Foi em 1996, com Trainspotting, que Danny Boyle, que vinha da TV e tinha em carteira uma longa, Pequenos Crimes entre Amigos (1994) — se tornou num dos realizadores mais detestados pela crítica JUAN NAHARRO GIMENEZ/GETTY IMAGES

“A idade é cruel, e isso é uma terrível lição que não podemos evitar. Tentamos aceitá-la o melhor que podemos ao longo da nossa vida. Mas o Danny di-lo na perfeição: quando somos novos, nunca paramos para pensar no tempo. E à medida que envelhecemos, percebemos que é o tempo que não pára por nós, e já não nos sobra muito." Ewen Bremner está invulgarmente pensativo para o que é normal numa mesa-redonda com a imprensa? Talvez, sim. Mas, apesar de toda a energia, de todo o frenesi visual que identificamos com o realizador Danny Boyle, de toda a vontade de recuperar o passado, T2 Trainspotting não é exactamente um filme alegre. Ou, como Boyle diz, “é um testemunho pessoal sobre o que é envelhecer, sem saber o que fazer desse envelhecimento. Perceber de repente que ficámos parados no mesmo sítio e nada aconteceu.”20 anos depois, então, o que sobra aos agarrados de Edimburgo criados em 1992 pelo escritor Irvine Welsh a partir das suas próprias experiências e das de amigos e conhecidos?Renton (Ewan MacGregor) largou a heroína e vive em Amesterdão. Spud (Bremner) não largou a heroína e deitou a vida por terra. Sick Boy (Jonny Lee Miller) passou para a cocaína, gere o pub da família (mais mal que bem) e monta golpezinhos chantagistas com uma amiga búlgara. Begbie (Robert Carlyle) está na prisão e só pensa em vingar-se de Renton. Na verdade, nenhum deles cresceu. “Estão a agarrar-se desesperadamente à sua juventude, como os homens costumam fazer,” diz Boyle. “Nós, homens, somos muito mais culpados disso do que as mulheres. Mas todas as provas que vemos no écrã é que eles já não são os rapazes que foram. É cruel e brutal, sim, e o filme está sempre a dizer-nos isso enquanto eles tentam, desesperadamente, recuperar a sua juventude.”

Uma juventude que, claro, não é recuperável. Trainspotting (1995) era um filme do seu tempo, no seu tempo. T2 Trainspotting (2017) é um filme do nosso tempo, no nosso tempo. É nesse jogo dos 20 anos que passaram entre um e outro que esta peculiar sequela se coloca e se ganha. Durante 1996, Trainspotting foi um fenómeno que começou no Reino Unido, percorreu o mundo (chegando a ser nomeado para o Óscar de melhor argumento) e lançou carreiras. Foi a partir daqui que Danny Boyle – que vinha da televisão e tinha então em carteira uma única longa, Pequenos Crimes entre Amigos (1994) – se tornou num dos realizadores mais detestados pela crítica internacional, espécie de equivalente contemporâneo de Ken Russell, ou que Ewan McGregor partiu para uma carreira de actor de rara coerência e diversidade. No Festival de Berlim, onde T2 Trainspotting teve estreia internacional depois da estreia britânica, são incontáveis os jornalistas para quem o filme original faz parte da sua vida – tão icónico para uma certa geração como Easy Rider o terá sido para quem tinha 20 anos em 1968.
A palavra é citada recorrentemente nas mesas redondas que Boyle e Bremner realizam com a imprensa em Berlim, onde o Ípsilon esteve presente: “nostalgia”. “A nostalgia é muito perigosa,” diz o realizador, “porque pode cair muito facilmente no sentimentalismo e é preciso ter muito cuidado. Mas o passado vive dentro de cada um de nós, e a certa altura temos de dialogar com ele.” Bremner fala de nostalgia numa outra dimensão. “Há 20 anos, quando fizemos o original, no meu lado do mundo estávamos a sair de um período muito conservador, de direita, e a entrar num momento de esperança e de mudança. Tudo era possível, havia uma explosão cultural, na música, no cinema, na arte… Em Inglaterra tínhamos o Britpop, havia toda aquela cena da Cool Britannia, tenho certeza que nos vossos países havia coisas equivalente. Mas agora, 20 anos depois, estamos a dirigir-nos para o outro lado da lua, a entrar numa fase muito conservadora, onde essa ideia de ausência de limites está a ser erodida e as nossas esperanças a serem minimizadas… É algo de cíclico, mais do que linear, mas é isso que acho interessante.”


T2 recusa a nostalgia serôdia, chega até a brincar com ela, embora esteja consciente que não lhe consegue escapar. Mas sabe que 2017 não é igual a 1995, que – como diz Bremner – “é inevitável que a sociedade mude e que o filme reflicta isso.” O mundo real “intromete-se” aqui com o Brexit e as questões da independência da Escócia. “Ao contrário do Ken Loach, cujos filmes são abertamente pensados para confrontar as questões sociais, o nosso não foi concebido como político”, explica Boyle, “mas é evidente que, sendo filmes tão ligados ao seu tempo, podem ser lidos assim. O Brexit ainda não tinha acontecido quando começámos a rodar, e lembro-me do choque que foram os resultados do 25 de Junho. Mas decidimos não mudar nada no argumento, porque aconteça o que acontecer não há duvidas que a Escócia vai ficar na Europa e separar-se da Inglaterra. Assim como assim eles nunca gostaram dos ingleses,” ri-se. “Preferem os franceses, com os quais costumavam recrutar exércitos para combater os ingleses… “Electricidade estética
T2 Trainspotting, então, 20 anos depois. A equipa-chave do filme original está de volta – Boyle, o argumentista John Hodge, os quatro actores principais, mais a actriz Kelly MacDonald numa participação especial pela qual mal se dá – para uma “sequela” que não é bem uma sequela. A base é não apenas o livro/filme original mas também Porno, o romance-sequela-”dez-anos-depois” que Welsh escreveu, embora – como diz Boyle – “com o cunho pessoal do John Hodge no qual todos nós fomos capazes de inserir as nossas próprias experiências”. O estatuto, esse, é completamente diferente: Boyle flirtou com os EUA, venceu um Óscar por Quem Quer Ser Bilionário? (2008), assinou filmes tão díspares como A Praia, 28 Dias Depois, 127 Horas e Steve Jobs; Ewan McGregor rodou com Tim Burton, Roman Polanski, Woody Allen ou Todd Haynes e Ewen Bremner com Harmony Korine, Guy Ritchie ou Ridley Scott, enquanto Robert Carlyle e Jonny Lee Miller encontraram trabalho fixo na televisão americana (Carlyle em Era uma Vez, Miller, que foi casado com Angelina Jolie antes de Billy Bob Thornton e Brad Pitt, em Elementar).


Em Berlim, só o realizador e Bremner falam à imprensa (nem McGregor nem Carlyle fizeram a deslocação, e Miller apenas esteve presente na conferência de imprensa). Alguém pergunta, durante a mesa redonda, como foi o momento em que os quatro actores se reencontraram no plateau – mas Boyle esclarece que não foi bem assim, devido aos calendários do elenco. “Primeiro tivemos o Ewen, depois vieram o Jonny (Lee Miller) e o Bobby (Carlyle), que abdicaram das férias nas suas séries para vir rodar, e o último a chegar foi o Ewan (McGregor) que estava a acabar o seu filme [Uma História Americana, adaptado de Philip Roth]. Eles só estiveram todos um par de semanas, porque depois o Bobby e o Jonny tiveram de se ir embora. Mas felizmente aquilo de que estávamos à espera aconteceu: que a electricidade surgisse quando contracenavam uns com os outros. A primeira cena que rodámos foi o reencontro na cave do pub entre Begbie e Sick Boy, a cena do gorila, e a energia estava lá toda. Percebemos imediatamente que ia tudo correr bem.”



Para Ewen Bremner, “não parece que tenham passado 20 anos. Mas a verdade é que neste mundo em que nós, actores, vivemos, só muito raramente nos reencontramos. É como um circo, e somos feirantes: temos uma família fantástica durante um mês ou dois ou três, trabalhamos no duro juntos, temos oportunidades que não queremos desperdiçar, e ao fim desse tempo o circo é desmontado, a família desfaz-se, e ficamos à toa. Um vai para a Austrália, outro para o Canadá, outro para a Islândia… E de repente perdemos essa família. Claro que é igual para toda a gente, mas nós vivemo-lo de uma maneira mais extrema, muito concentrada.” Bremner é, de todo o elenco, aquele que mais ganha – Spud é o centro de gravidade do filme, parte bobo da corte parte consciência moral. “É o papel perfeito, porque no universo que o Danny cria, o surreal existe ao lado do hiper-real, tudo é realista mas com um elemento de sub-consciente. Tudo é possível.” É essa sobrecarga de efeitos e referências na qual muitas vezes Boyle se deixa afundar que o torna tão cansativo e excessivo, mas aqui é plenamente justificada, ou não fosse este um filme sobre o que fica depois das fachadas virem abaixo.



A passadeira do ginásio

T2 navega nas águas extraordinariamente turvas de prolongar um filme que não precisava de ser prolongado – mesmo que o precedente estivesse aberto pelo próprio livro de Irvine Welsh, e que a questão se tenha levantado regularmente desde que Porno foi publicado em 2002. “Durante as audições para alguns papéis deste filme, falei com o John Gordon Sinclair, que era a vedeta de Adolescentes de Bill Forsyth [1980]”, diz Boyle. “Ora, eles tinham feito uma sequela 20-anos-depois, chamada Gregory’s Two Girls [1999]. E perguntei-lhe, 'que conselho me podes dar?' E ele respondeu-me 'faz exactamente o mesmo filme que fizeste da primeira vez, se não estás morto'. Nós não fizemos isso, mas a verdade é que, num projecto como este, temos de fazer a mesma coisa fazendo uma coisa diferente. O Bill Forsyth fez uma coisa completamente diferente do primeiro filme e a coisa correu mal, mas se fizermos exactamente a mesma coisa as pessoas também não vão gostar...” “Eu não estava exactamente céptico”, diz Bremner, “mas estava claramente nervoso. O primeiro filme foi um fenómeno que falou às pessoas, no qual elas se investiram, que reflectia as suas identidades. Queríamos honrar isso. Não queríamos que as pessoas achassem que estávamos apenas a aproveitar-nos, que tínhamos levado as jóias da família à loja de penhores para comprar um Lamborghini (risos)”.



Boyle admite que “logo ao princípio tomámos consciência que, se a coisa não resultasse, ia ser muito mau. Ia ser tão mau que nos íamos estatelar ao comprido e nunca mais conseguiríamos levantar-nos do tapete.” (Não é, fiquem descansados.) “Mas isso em si tinha algo de entusiasmante. E depois passa-nos... Não podemos trabalhar diariamente com esse tipo de medo. Temos a obrigação de nos portarmos bem, porque há uma tal dívida ao primeiro filme, um respeito pelo amor das pessoas, que nunca se perde. Mas os grandes estúdios trabalham assim: todos os dias nos mandam notas a dizer 'durante a noite alguém escreveu na internet que devia haver uma cena sobre tal e coiso e por isso tem de haver uma cena sobre tal e coiso'. Não trabalhamos assim, e nunca gastamos nem pedimos muito dinheiro, para podermos continuar a trabalhar de maneira livre, sem termos de nos preocupar com as pressões. E a verdade é que este guião tinha uma natureza muito pessoal, mais do que as pessoas talvez esperassem. É apropriado que assim seja: não podemos voltar a fazer Trainspotting com personagens que têm 46 anos. Só podemos mostrá-los a tentarem comportar-se como antes.”
Voltamos, ainda e sempre, à questão dos 20 anos que passaram. “O primeiro filme começa com a fuga de Renton aos seguranças da loja,” diz Boyle rindo, “e a versão meia-idade disso, claro, é a passadeira do ginásio. Correr para lado nenhum, sem sequer estar a fugir de nada, nem sequer dos seguranças. É algo de absurdo, mas já todos o fizemos e fazemos. Renton e Sick Boy estão a tentar recriar o passado, a portar-se como se ainda tivessem a energia e a irresponsabilidade da juventude. Mas a verdade é que todos eles – à excepção do Renton – agora são pais e têm sido maus pais. O filme está cheio de filhos decepcionados e mulheres decepcionadas.” “Achamos que somos as mesmas pessoas que éramos,” diz Bremner, “mas quando olhamos para trás há tantas coisas que vemos de maneira diferente, coisas que nos marcaram sem termos consciência disso… A idade é o nosso grande efeito especial neste filme. E é um efeito especial valioso, que não pode ser medido por um orçamento de animação. Um filme como este força-nos a compreender que já não temos a idade que sentimos que temos.”




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