53ª 31 de março de 1981 Gente Vulgar


Talento é uma coisa muito impressionante, um mistério denso, insolúvel. Uns têm demais, outros não têm nenhum. Não há reforma talentária, insurreição, revolução, que possa dar jeito nisso. Robert Redfdord, por exemplo, tem demais. Gente como a Gente, seu primeiro filme como diretor, é uma obra-prima. A perfeição. Não há uma tomada sequer que distoe. É tudo um brilho.

A ver. Redford tinha 44 em 1980, o ano em que Ordinary People foi lançado. Começara a carreira como ator, em participações em séries de TV, em 1960. Nem me lembrava disso: fez pequenos papéis em Maverick, Perry Mason, Rota 66, Dr. Kildare, Os Intocáveis, até em Alfred Hitchcock Presents, e diversas outras séries obscuras, de que nunca ouvi falar.

Seu primeiro papel marcante no cinema foi em 1966, o ano em que completou 30, e foi logo em um filme extraordinário, colossal: Caçada Humana/The Chase, de Arthur Penn. Fazia um papel importante, fundamental na trama, o de Bubber Reeves, o homem que foge da prisão e é caçado, mas aparecia pouco na tela, onde brilhavam Marlon Brando como o xerife, Angie Dickinson como sua mulher, E. G. Marshall como o milionário dono de quase tudo na cidade em que se passa a ação, e Jane Fonda, esplendorosamente bela, como a ex-mulher do fugitivo, na época amante do filho do milionário.

A partir daí o relógio andou depressa para Charles Robert Redford Jr: vieram Esta Mulher é Proibida/This Property is Condemned, do então jovem Sydney Pollack, de 1966, e Descalços no Parque, de novo ao lado de Jane Fonda, de 1967. Em 1969 estrelou Butch Cassidy and the Sundance Kid, ao lado de Paul Newman, e aí ele já era um grande astro.

Um roteiro sóbrio, elegante, sem apelar para o sentimentalismo






Escolheu para estrear na direcção um drama familiar denso, pesado, sobre uma família despedaçada após uma trágica perda. Teve talento e sorte para escolher o tema e os principais colaboradores. Alvin Sargent, o roteirista, que trabalhou a partir da novela de Judith Guest, já havia assinado roteiros de filmes importantes, desde comédias gostosas – Como Possuir Lissu, Lua de Papel – e dramas –Bobby Deerfield,Julia.

Sargent escreveu um roteiro extraordinário. Sóbrio, elegante, inteligente, sem apelar para sentimentalismo.

Os atores foram um achado, uma perfeição. O pai, Calvin Jarrett, é interpretado por Donald Sutherland, o excelente ator canadense. A mãe, Beth, por Mary Tyler Moore, já então uma lenda da TV americana, apresentadora de seu próprio show, cujo título era apenas seu nome – mas que estava há muito sem um papel dramático importante. O papel do psiquiatra coube a Judd Hirsch, que jamais foi ou seria um astro, mas é um grande actor.

E, para o papel central, o do jovem Conrad Jarrett, foi escolhido Timothy Hutton, já então com uma carreira em filmes e séries de TV e 20 anos de idade, mas com a aparência de menos, de uns 17, que devia ser a idade do protagonista da história.

Que acerto extraordinário, que felicidade, a escolha de Timothy Hutton.

Não precisava mais nada, no elenco – até porque a ação se concentra praticamente o tempo todo no adolescente perturbado, e, de resto, no pai, na mãe e no psiquiatra. Mas a diretora de elenco, Penny Perry, ainda teve a sabedoria de escolher, para o papel de Jeannine, a colega de escola e de coral de Conrad, a garota Elizabeth McGovern, então com 19 aninhos e os olhos mais belos da história do cinema depois de sua xará inglesa, a Taylor.





Em seu primeiro trabalho como realizador, Redford se mostra perfeito director de actores


Há muitos grandes cineastas que são exímios diretores de elenco. Claude Lelouch, por exemplo, é um genial diretor de atores – mas, como ele é detestado por 99,9% dos críticos de cinema, é bom lembrar outros, como, por exemplo, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. François Truffaut. Alfred Hitchcock.

Em seu primeiro filme como realizador, Robert Redford juntou-se à selecta galeria dos maiores directores de actores da história do cinema.


Donald Sutherland

Mary Tyler Moore

Timothy Hutton


Imagens e textos (tradução automática), colhidos da internet

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