89ª edição 27 de Fevereiro de 2017,melhor filme Moonlight

As históricas 14 nomeações com que La La Land: Melodia de Amor partiu para a 89.ª edição dos Óscares faziam do musical de Damien Chazelle o favorito desta noite de domingo no Dolby Theatre, em Los Angeles. O filme conquistou seis estatuetas douradas– mais do que Moonlight (três), Manchester By The Sea (duas) ou Hacksaw Ridge (duas) –, mas não saiu da gala consagrado como o vencedor inequívoco. Aqui fica a lista com todos os vencedores.

Melhor filme

Sai equipa de La La Land, sobe ao palco a equipa de Moonlight. Como num filme de suspense, a cerimónia dos Óscares deste ano também contou com um twist. Depois de os produtores do filme musical que era tido como favorito ter feito os seus discursos de agradecimento, a produção detectou o erro e teve de anunciar o verdadeiro vencedor: Moonlight, realizado por Barry Jenkins, foi o Melhor Filme do ano para a Academia de Cinema norte-americana.


Melhor actriz Ema Stone

Melhor realizador Damien Chazelle

Melhor direcção de arte

Melhor fotografia

Melhor banda sonora original

Melhor canção

Melhor filme Moonlight

MoonlightFilme: Dede Gardner, Jeremy Kleiner e Adele Romanski



Melhor actor Casey Affleck

Melhor actor secundário Mahershala Ali

Melhor argumento adaptado Barry Jenkins e Tarell McCraney


Melhor actriz secundária Viola Davis

Melhor argumento original Kenneth Lonergan

Melhor montagem
Melhor montagem: John Gilbert

Melhor mistura de som

Mistura de som: Kevin O'Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace

Melhor montagem de som

Montagem de som: Sylvain Bellemare Esquadrão Suicida

Melhor caracterização

Caracterização: Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Allen Nelson

Melhores efeitos visuais

Efeitos visuais: Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon

Melhor filme estrangeiro

O Vendedor  Melhor filme estrangeiro: Asghar Farhadi

Melhor guarda roupa

Guarda-roupa: Colleen Atwood

Melhor documentário

Documentário: Ezra Edelman e Caroline Waterlow

Melhor curta Metragem documental

Curta-metragem documental: Orlando von Einsiedel e Joanna Natasegara

Melhor curta Metragem


MindenkiCurta-metragem: Kristóf Deák e Anna Udvardy

Melhor animação

Animação: Byron Howard, Rich Moore e Clark Spencer

Melhor curta metragem de animação

Curta-metragem de animação: Alan Barillaro, Marc Sondheimer


Mahershala Ali, vencedor de melhor actor secundário para Moonlight, Emma Stone, vencedora de melhor actriz por La La Land, Viola Davis, vencedor do prémio de melhor actriz secundária por Cercas e Casey Affleck, vencedor de Melhor Actor por Manchester

E o Óscar é... jovem, negro e homossexual

Numa cerimónia bem-comportada que premiou o que se esperava, a surpresa surgiu à vista da meta com a vitória de Moonlightcomo melhor filme. Uma vitória histórica para um filme literalmente “à margem” da indústria.

JORGE MOURINHA 27 de Fevereiro de 2017


Os Óscares ficam sempre na história, por este ou aquele vencedor ou momento ou gague ou discurso ou celebração. Mas a cerimónia de 2017 vai sempre ser recordada pelo momento, pouco depois das cinco da manhã de 27 de Fevereiro em Lisboa, em que o filme que todos achavam que ia ganhar viu o Óscar ser-lhe tirado em cima do palco.


Por esta altura já toda a gente sabe do erro de Faye Dunaway e Warren Beatty, a quem foi entregue por engano o cartão de vencedor de Melhor Actriz e não de Melhor Filme. (A Price Waterhouse Coopers, consultoria responsável pela contagem de votos, assumiu entretanto por inteiro, num comunicado oficial, a responsabilidade do erro, anunciando que vai investigar como foi possível o envelope errado ter sido entregue aos apresentadores.) 

Charlize Theron e Shirley MacClaine

Também já toda a gente sabe da elegância com que o produtor de La La Land Jordan Horowitz o corrigiu em palco, chamando a equipa de Moonlight para receber o prémio que lhes era devido. E desde logo pulularam na Internet as comparações (ou conspirações?) à eleição de Novembro (onde Hillary Clinton perdeu a presidência apesar de ter ganho no voto popular), como se a bolha liberal dos Óscares fosse uma compensação impossível pela vitória de Donald Trump.

Anoushet Ansari

O que realmente importa, contudo, é outra coisa: a inesperada e improvável vitória de Moonlight de Barry Jenkins como Melhor Filme na madrugada de 26 para 27 de Fevereiro de 2017 é algo de histórico no cinema americano. Como diz Sean Fennessey logo a abrir a sua história no site The Ringer: “Nunca um filme com um orçamento tão pequeno, um elenco tão desconhecido, uma história tão pessoal, um resultado de bilheteira tão modesto e uma origem tão improvável recebeu a maior honra da indústria do cinema.”

Viola Davis

La La Land – Melodia de Amor, o musical retro-consciente e escapista de Damien Chazelle que partia triunfador para esta 89.ª edição dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com um recorde de 14 nomeações, pode ter levado o maior número de estatuetas da noite (seis, incluindo melhor actriz para Emma Stone e melhor realização para Damien Chazelle). Mas perdeu à vista da meta “o” Óscar que marca para a vida, criando a surpresa e abrindo toda uma série de leituras possíveis para a cerimónia 2017.

Kevin O´Connell

A começar pela “narrativa negra” — um ano cheio de vitórias de filmes e figuras negras, como compensação por todas as controvérsias #OscarsSoWhite de anos anteriores. A cerimónia entregou Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Actor Secundário (Mahershala Ali, primeiro muçulmano a receber um Óscar) a Moonlight; melhor actriz secundária a Viola Davis(Vedações); melhor documentário para as oito horas de O. J. Made in Americade Ezra Edelman, produzido para o canal de cabo ESPN.

As actrizes do filme "Elementos Secretos"

A leitura que interessa, contudo, transcende questões de cor da pele: os Óscares têm sistematicamente tendência a premiar a mediania e o conformismo, “aquilo que já sabemos que gostamos” em vez de “aquilo que é realmente fora de série.” Ao dar o prémio máximo a Moonlight, a Academia decidiu premiar algo “fora de série”. Financiado fora dos grandes estúdios, Moonlight foi o menos visto dos nove nomeados a Melhor Filme (com apenas 23 milhões de dólares de receita americana), bem como o menos formatado e menos convencional. Jenkins, de 37 anos, com meia-dúzia de curtas e uma única longa em carteira (a excelente Medicine for Melancholy, exibida no IndieLisboa em 2008), adaptou com um elenco desconhecido e uma equipa composta de colegas da escola de cinema uma peça inédita do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, In Moonlight Black Boys Look Blue, filmando no próprio bairro de Miami (Liberty City) onde o realizador cresceu.

As actrizes do filme "Elementos Secretos" com Katherine Johnson

Contado em três tempos diferentes na educação do jovem Chiron (interpretado por três actores diferentes consoante a idade), Moonlight atira-se de cabeça a uma vivência que o cinema mainstream nunca abordou: o que significa ser jovem, negro, homossexual na América hoje (para que conste: McCraney é gay, Jenkins é heterossexual).

Mahershala Ali

Como aponta Aisha Harris na Slate, é a primeira vez que um filme com personagens negras que não aborda o racismo ganha o Óscar de melhor filme. E, para lá da cor da pele, é a primeira vez que um filme sobre uma personagem homossexual ganha o prémio máximo da Academia. Nem Filadélfia de Jonathan Demme, Milk de Gus van Sant ou O Segredo de Brokeback Mountain de Ang Lee o conseguiram.

Alicia Vikander

Os Óscares não deixaram por isso de ser mais do mesmo. Houve as previsíveis vitórias de solidariedade global (a segunda vitória do iraniano Asghar Farhadi em Melhor Filme Estrangeiro por O Vendedor, ou o galardão à curta documental The White Helmets, sobre os voluntários da defesa civil síria) e a homenagem ao profissionalismo rodado dos seus inúmeros técnicos e criativos, jovens ou veteranos (os prémios técnicos de La La Land, O Primeiro Encontro, O Herói de Hacksaw Ridge ou Monstros Fantásticos).

Orlando Von Einsiedel e Joanna Natasegara

E, se não tivesse havido o espalhafatoso twist final de Moonlight, por entre a gaffe de Bonnie e Clyde e o equilíbrio discreto de uma cerimónia que cumpriu os requisitos, a maioria dos prémios corresponderam às (boas ou más) expectativas dos observadores. Mas bastou uma gaffe, e uma vitória em que já ninguém acreditava, para inscrever os Óscares de 2017 na história dos galardões como uma noite especial que escreveu, literalmente, direito por linhas tortas.


Michael J Fox e Seth Rogen

Meryl Streep e Javer Bardem

Faye Dunaway e Warren Beatty



Casey Affleck, Best Actor winner

Emma Stone, Best Actress winner

Mahershala Ali, Best Supporting Actor winner

Viola Davis, Best Supporting Actress winner

Kenneth Lonergan, vencedor Melhor Roteiro Original

O erro histórico dos Óscares já tem um culpado

Chama-se Brian Cullinan e foi ele quem deu o envelope errado aos apresentadores. Estaria ele distraído com Emma Stone? A Academia veio agora pedir desculpa.

Martha Ruiz e Brian Cullinan na passadeira vermelha antes da cerimónia com as pastas em que transportavam os envelopes com os vencedores

Na segunda-feira a PwC, a consultora que há 83 anos trata das votações para os Óscares, já tinha assumido todas as responsabilidades pelo fiasco na cerimónia de domingo no Dolby Theatre de Los Angeles. Agora foi a vez de a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vir pedir desculpa pelo facto de os actores Faye Dunaway e Warren Beatty terem chamado ao palco produtores e elenco de La La Land – A Melodia do Amor para receber o Óscar de Melhor filme quando, na realidade, o vencedor era Moonlight.

Num comunicado em que assume que o momento mais importante da noite foi ensombrado por uma gaffe monumental, a Academia “lamenta profundamente os erros” que levaram Dunaway e Beatty (aka Bonnie e Clyde) a anunciar o prémio para o filme de Damien Chazelle e não para o de Barry Jenkins.

E o Óscar é... jovem, negro e homossexual
No mesmo documento, sublinha a “tremenda elegância” com que todos os envolvidos em ambos os filmes lidaram com o sucedido e reconhece que a experiência da noite foi “profundamente alterada pelo erro [cometido]”.
“Passámos a última noite e o dia de hoje [segunda-feira] a investigar as circunstâncias e vamos decidir o que se justifica fazer daqui para a frente”, lê-se ainda nesta declaração em que volta a referir-se que a PwC, a antiga Price Waterhouse Coopers, assume todas as responsabilidades pelas “violações dos protocolos estabelecidos” que levaram ao anúncio errado.
A empresa, por seu lado, depois de assumir as falhas através do seu próprio comunicado, veio agora, num novo comunicado, identificar o culpado pelo fiasco – Brian Cullinan, um dos funcionários a quem cabia entregar os envelopes com os nomes dos vencedores aos apresentadores ao longo da cerimónia de prémios da indústria de cinema norte
-americana.

Cullinan e a colega, Martha Ruiz, estavam nos bastidores, um na ala esquerda do palco e outro na direita, e cada um tinha um conjunto completo de envelopes com os nomes dos escolhidos. Reconheceu a PwC que vários erros foram cometidos e que, para agravar a situação, nenhum dos seus funcionários foi capaz de reagir com rapidez mal o erro foi identificado.

Foram precisos mais de dois minutos para que a situação fosse corrigida, com todo o embaraço que esse compasso de espera implica – os produtores de La La Land estavam já a discursar com os agradecimentos do costume e foi mesmo um deles, Jordon Horowitz, quem se encarregou de chamar ao palco os produtores e o elenco de Moonlight para receberem o que era seu por direito, tirando o cartão com o nome do filme de Jenkins das mãos de um atordoado Warren Beatty e exibindo-o para as câmaras.

A PwC pedira já desculpas às equipas de ambos os filmes e reconhecera que tinha “falhado” no propósito de assegurar a integridade da entrega de prémios.
Ao longo do dia de segunda-feira sucederam-se as especulações em relação ao sucedido, com jornais como o Wall Street Journal a avançar com a possibilidade de Brian Cullinan ter cometido o erro por estar demasiado distraído já que, momentos antes do anúncio do Óscar para Melhor Filme, o funcionário da PwC tinha tweetado uma fotografia de Emma Stone nos bastidores segurando a estatueta para Melhor Actriz.





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