1955; 1973 Marlon Brando

Um retrato íntimo de Marlon Brando na sua própria voz

LUÍS MIGUEL QUEIRÓS   01/08/2015

O realizador Stevan Riley pesquisou 300 horas de gravações de Marlon Brando descobertas após a sua morte e usou-as no documentário Listen to Me Marlon, que se estreou ontem nos Estados Unidos.



Durante anos, Marlon Brando (1924-2004) manteve o hábito de se fechar numa sala e falar para um gravador. Começou a fazê-lo ainda na década de 60 e, ao longo da vida, foi acumulando apontamentos diarísticos, reflexões, tomadas de posição, comentários à sua vida pessoal, sessões de auto-hipnose, desconstruções da sua arte de interpretar.

O filme abre com uma imagem 3D da cabeça de Brando num ecrã de computador a predizer o fim anunciado do actor tal como o conhecemos

No total, são cerca de 300 horas de gravações áudio, descobertas após a sua morte, e que serviram de base ao documentarista inglês Stevan Riley para realizar Listen to Me Marlon, um retrato íntimo daquele que muitos consideram o maior actor de cinema de todos os tempos.

Com um material como este nas mãos, Riley, cujo filme chegou esta semana às salas de cinema americanas, pôde prescindir dos habituais testemunhos, entrevistas ou narrações em off, e limitou-se a deixar Brando contar de viva voz, por assim dizer, a sua atribulada vida pessoal e profissional.

Ouve-se Brando a dizer que reescreveu “todo o argumento de Apocalypse Now, uma declaração ao arrepio de toda a informação disponível sobre um dos filmes mais documentados de sempre

O filme, descreve o jornalista e crítico Jason Bailey no site Flavorwire, abre com uma imagem 3D da cabeça de Brando num ecrã de computador a predizer o fim anunciado do actor tal como o conhecemos: “Está tudo no digital, os actores deixarão de ser reais, e por isso talvez isto venha a ser o canto do cisne para todos nós”. E o que o “isto” significa percebe-se melhor logo a seguir, quando a digitalizada cabeça de Brando, simulacro dessa cabeça que ainda hoje assombrará os sonhos cinéfilos dos que viram Apocalypse Now, confessa o desejo de criar “um documentário altamente personalizado da vida e actividades de Marlon Brando, eu próprio”.

As cenas de pancadaria em Revolta na Bounty (1962) são usadas para ilustrar as desavenças de Brando com o realizador Lewis Milestone e as lutas que manteve desde a infância com as figuras de autoridade, a começar pelo pai

É como se Brando, por interposto realizador, tivesse dirigido postumamente a sua autobiografia. E uma parte dos elogios bastante unânimes que o documentário de Stevan Riley tem recebido da crítica deve-se justamente ao facto de ter deixado que fosse Marlon Brando a compor o seu retrato, sem interferências de terceiros, e resistindo à tentação de lhe sobrepor a sua própria visão do actor.


“Fiquei emocionadíssima, foi avassalador”, disse a filha de Brando, Rebecca, depois de ver o filme no Festival de Sundance, em Janeiro, onde Listen to Me Marlon perdeu o Grande Prémio do Júri na categoria de documentário paraWolfpack de Crystal Moselle. “É como se Stevan Riley tivesse trazido o meu pai de volta, da outra vida”. 


Rebecca Brando lembra-se de o pai falar “muito frequentemente” para o gravador, embora nunca tenha assistido a nenhuma sessão. “Às vezes entrava na sala e via-o a gravar, mas ele parava de falar, de modo que nunca soube o que dizia”.


E muito do que de mais interessante e comovedor Brando diz nestas gravações prende-se com a desmistificação do seu trabalho como actor. Este Marlon Brando falando consigo próprio, mas consciente de que está a deixar um testemunho, é alguém “com a consciência aguda de que o talento não chega, que sabe quanto o seu sucesso inicial se deveu a uma fortuita questão de timing: ser o actor certo no tempo certo, um novo tipo de actor para um público que sentia, como ele próprio, que a arte da interpretação no cinema tinha chegado a um ponto em que ‘tudo era cliché’”, diz Jason Bailey.


O dom da curiosidade

Nas gravações que Stevan Riley seleccionou para o filme, Brando reduz a sua filosofia e técnicas de interpretação a um elemento básico: “a curiosidade pelas pessoas”. Era algo que lhe estava no sangue, explica a sua filha ao site Flavorwire. Se trazia um amigo a casa, o pai perguntava-lhe: “Por que é que achas que ele é tão calado? Por que é que achas que ele está sempre a sorrir?”. E ela própria não escapava à curiosidade do actor: “O que é que estás a pensar neste preciso momento? Por que é que puseste a mão no ombro? Sabes que quando pousaste a mão no ombro, levantaste um dedo?’”.

Marlon Brando with Eva Marie Saint on the set of On the Waterfront directed by Elia Kazan, 1954

Críticos como Dennis Harvey, da Variety, ou Kenji Fukishima, da Slant Magazine, destacam as escolhas certeiras de Riley na escolha e montagem dos muito diversos materiais de arquivo que se cruzam no filme com a voz de Brando: cenas de bastidores, aparições televisivas, excertos de filmes domésticos, notícias de jornais, e também manchetes de tablóides visando os aspectos mais escandalosos e dolorosos da sua vida, incluindo a prisão do seu filho Christian por ter assassinado o namorado da meia-irmã Cheyenne, em 1990, o suicídio da própria Chyenne em 1995, aos 25 anos, ou a morte precoce de Christian em 2008, de pneumonia, poucos anos após ter sido libertado.


E claro que Riley não podia ter deixado de incluir uma selecção de cenas dos muitos filmes que Marlon Brando protagonizou. E também nesta escolha, assinala Dennis Harvey, o realizador demonstrou a sua imparcialidade: “Por cada momento célebre de Há Lodo no Cais ou O Padrinho, há exemplos de projectos grosseiramente comerciais ou artisticamente falhados, e dos quais o actor se envergonhava, como o fiasco dirigido por Chaplin que foi A Condessa de Hong Kong”.


Como exemplo do modo como o documentarista se serve dos excertos de filmes para efeitos de dramatização, Jason Bailey aponta as cenas de pancadaria em Revolta na Bounty (1962), usadas não apenas para ilustrar as desavenças de Brando com o realizador do filme, Lewis Milestone, e os estúdios da MGM, mas as lutas que manteve desde a infância, e ao longo de toda a vida, com as figuras de autoridade, a começar pelo pai.


Autoridade é também a palavra certa para designar o estatuto que o realizador atribui à voz de Brando no filme, à versão que esta conta. Permite, por exemplo, que o actor afirme sem contraditório que reescreveu “todo o argumento de Apocalypse Now”, uma declaração ao arrepio de “toda a informação disponível sobre um dos filmes mais documentados de sempre”, observa Bailey. Mas não é de excluir, acrescenta, que Riley tenha deliberadamente mantido esta passagem sabendo que todos detectariam o seu “grosseiro exagero”.

brando and pacino.

Listen to Me Marlon, cujo título vem de uma frase que uma metade de Brando diz à outra durante uma sessão de auto-hipnose, “faz tudo o que um documentário pode fazer”, garante o crítico da Variety, para mostrar a “complexidade” de alguém que, para lá de ser considerado “o maior actor da sua geração”, foi também, fora do ecrã, “uma das mais enigmáticas, imprevisíveis e sofridas estrelas de cinema”.

Apocalypse Now

Marlon Brando
Marlon Brando & Angie Dickinson en “The Chase”, 1966.

Marlon Brando in his first film The Men
Marlon Brando en Apocalypse Now (F. F. Coppola, 1979)
*Marilyn Monroe & Marlon Brando According to Brando, he and Marilyn had an affair in the early 1950s and remained good friends until her untimely death in 1962.
Marlon par Tazio Secchiaroli
Marlon Brando. This may have caught Brando at a rare moment when he was actually studying his part.
Young Marlon Brando, don't even start with me... Thank god you got all old and creepy to save the world from being destroyed by your raw sexual charisma.
The Countess From Hong Kong Marlon Brando, Charlie Chaplin, Sophia Loren ~ Charles Chaplin originally conceived the idea for this movie 30 years previously (and was titled "Stowaway"), as a starring vehicle for his then-wife Paulette Goddard.
Marlon Brando and Elizabeth Taylor
Marlon Brando. Década de 1950.

Marlon Brando and Grace Kelly with their Oscars, March 30, 1955.
The Old School Pic Thread: Post pics from History

Marlon Brando

Marlon Brando en 'El último tango en Paris', 1972

Jane Fonda and Marlon Brando on the set of The Chase, 1966.

Marlon Brando with Mary Murphy on the set of 'The Wild One' in 1953.

Marlon Brando and Tarita Teriipia “Mutiny on the Bounty”, 1962

The Wild One (1953) I cannot wait to see this tonight, stay tuned for updates

Marlon Brando and Vivien Leigh, "A Streetcar Named Desire"- classic movie 1951 (based on the play by Tennessee Williams)
Day 74. Watch this tonight. Marlin Brando plays his part so well and they all do


Marlon Brando


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